Carta de Setembro

Regresso ao trabalho

— Pai, não gosto de trabalhar!

Aquela afirmação estranhava o pai, mas não o filho, que na típica visão de uma criança de nove anos via o mundo a apenas duas cores: fazer o que nos apetece fazer e ter de fazer o que não nos apetece nada fazer. O pai sabia que nunca nos afastamos muito desse maniqueísmo cromático. Como se a paleta emocional da vida se mantivesse sempre ali, camuflada pelas circunstâncias e esmagada pela pressão da superfície visível.

— O que queres dizer com isso? 

— Aqui, estamos sempre a trabalhar.

— Percebo. 

Naquele silêncio breve, a mente do pai tentava encontrar a luz de saída para o túnel filosófico onde agora conduzia o veículo da suposta razão. Como criatura evolutiva sabia que o filho tinha razão, como progenitor recente sentia a pressão de o preparar para a vida adulta que de certeza se seguiria. 

— O trabalho faz parte da vida...

O pai iniciava, assim, o discurso que tinha ensaiado para aquele tipo de ocasião. Sempre pensara que o momento chegaria e, algures no tempo e no espaço, tinha imaginado palavras sábias e bem medidas para a criança guardar na sua vida adulta. Infelizmente, ali e agora, perdia o sentido e ficava sem saber o que argumentar para além do óbvio: é a vida. 

— ... é a vida!

Reparou na tristeza que a criança adivinhava para o resto da vida, um mundo de possíveis ocasiões de usufruto transformadas em obrigações e libações quotidianas para todo o sempre. A inflexão surgiu e o pai lembrou-se de como teria sido se ninguém lhe tivesse nunca dito isso.

— Não fiques triste, trabalhar é construir. Trabalhar é construir, com esforço, a vida. Imagina que carregas uma pedra e, pedra a pedra, lentamente, a colocas em linha, em altura, na construção da tua casa. Não a casa dos outros, mas a tua, onde poderás ir descansando, brincando, aprendendo, e que um dia a poderás ver tão bem de fora como de dentro, orgulhoso do teu esforço, orgulhoso da tua casa, orgulhoso do teu trabalho.

A criança suava, no esforço imaginário de passar uma vida a transportar pedras, numa elevação construtiva de compensação demasiado tardia. Em silêncio esperavam, os dois, por uma qualquer satisfação naquele momento, não depois. Tinha de ser agora e a criança revelou então uma sabedoria superior ao desafio imagético do pai.

— E tu, ajudas-me?

Sempre, respondeu o pai sem o chegar a dizer. Ali, os dois, conscientes do verdadeiramente importante, revelavam-se agora trabalhadores da sua própria relação, da sua própria casa, do seu próprio dentro e fora. Visto de fora, dir-se-iam satisfeitos e prontos para continuarem a trabalhar nos sobes e desces das passagens de testemunho.

*

Em SETEMBRO, abrimos inscrições para os nossos clubes, o Clube de Teatro do Bombarda e o novo Clube de Texto do Braço de Prata. Experiências imersivas entre a criação, a curiosidade e a experimentação com aqueles e aquelas que procuram uma forma de se encontrar, seja a escrever, seja a representar os lugares dos outros. Continuamos em ensaios de montagem da nossa co-produção com a Companhia Mascarenhas Martins sobre o Julgamento de Artemisia Gentileschi com encenação de Maria Mascarenhas, a estrear a 16 de Outubro.

Voltemos ao trabalho,

Pedro Saavedra

Setembro de 2026